terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Queda nas projeções para IPCA reforça cenário de juro menor


Recessão, desemprego, dólar e inflação em queda: essa combinação abre espaço para um corte mais acelerado dos juros. Ainda assim, os economistas apostam que o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, que se reúne hoje e amanhã, manterá o ritmo adotado no encontro de janeiro, quando a taxa básica de juros (Selic) foi reduzida em 0,75 ponto percentual, para 13% ao ano. Ou seja, a expectativa é que a Selic, amanhã, vá a 12,25%. Especialistas ouvidos pelo GLOBO não esperam movimentos bruscos por parte do Copom. Eles ressaltam que essa aposta na previsibilidade - e, por consequência, na credibilidade - ajudaria o BC a manter a inflação abaixo da meta, visando à redução do objetivo para 2019.

Para este ano e 2018, a meta estipulada para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) é de 4,5%. As projeções dos analistas do mercado financeiro estão em 4,43% para este ano, segundo a pesquisa semanal Focus, do BC, divulgada ontem. Foi a sétima semana consecutiva de queda, e as estimativas podem continuar caindo. 

POSSIBILIDADE DE REDUÇÃO DA META

 Ao projetar o comportamento dos preços no Brasil, os analistas levam em consideração a perspectiva de que o BC continuará a reduzir os juros. A estimativa é de mais três cortes de 0,75 ponto percentual. Em julho, o ritmo deve cair, segundo os economistas ouvidos no Focus. Para dezembro, a projeção é que a Selic esteja em 9,5% ao ano.

Além de mostrar que há condições para fazer com que o Brasil tenha uma meta de inflação mais baixa no futuro, ao manter o ritmo do corte, o BC não repetiria a surpresa do encontro do Copom de janeiro, quando o mercado esperava uma queda de 0,5 ponto percentual. Depois de várias críticas, o presidente da instituição, Ilan Goldfajn, chegou a afirmar que esse era o "novo ritmo" da política de controle da inflação.

- Seria esquisito ter uma nova surpresa. Uma coisa é surpreender em um mês. Outra coisa é surpreender sempre, como antigamente - diz a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif.

Já Arnaldo Curvello, diretor da Ativa Wealth Management, espera um corte de um ponto percentual, para 12% ao ano. Ao longo de 2017, no entanto, as reduções seriam menores: ele prevê a Selic a 10% em dezembro.

O chamado "Top 5", que mais acerta as projeções, já espera uma inflação menor. No Focus, esse grupo estima que o IPCA encerre o ano a 4,14%. Para a projeção é de 4,18%.

Esses dados chancelariam uma possível redução da meta de inflação a ser perseguida pelo BC. O debate deve ganhar corpo daqui para frente: em junho, o Conselho Monetário Nacional (CMN) tem de definir qual será a meta de 2019.

Para Eduardo Velho, economista-chefe da INVX Global, se a inflação continuar a ceder, as boas previsões para safra forem confirmadas e o dólar permanecer em um patamar baixo, o quadro para a inflação deve melhorar, o que justificaria a redução da meta:

- O BC está querendo que a inflação fique abaixo da meta para dar confiança. Por isso, pode até prolongar o processo de queda dos juros - explica. - É melhor mostrar para um mercado um movimento consistente do que a gente voltar a ter só esperança e não certeza de que a inflação vai cair. 

TEMER: 'ESTAMOS REDUZINDO OS JUROS'

A inflação e os juros também foram abordados pelo presidente Michel Temer, que esteve em São Paulo para lançar o programa do governo federal de modernização da agricultura Agro +. Ele ressaltou que a perda de fôlego do IPCA permitirá a queda nas taxas de juros brasileiras, o que, por sua vez, estimulará o aumento da produtividade.

- Em menos de nove meses de governo, conseguimos reduzir sensivelmente a inflação, de 10,70% para 5,35%. Estamos reduzindo os juros no país, tudo isso deriva da força da economia - disse Temer a empresários do agronegócio, mas sem estimar um patamar para a Selic.

Temer também defendeu a reforma no regime de aposentadoria:

- Ou você reforma a Previdência hoje ou daqui a dez anos, quando você bater à porta do governo, não haverá dinheiro para pagar, como já acontece com muitos estados.



O Globo, Gabriela Valente, 21/fev