segunda-feira, 20 de abril de 2020

Imóveis entram na era digital


Em tempos de isolamento social, causado pelo coronavírus, ter uma casa ganha um significado ainda mais importante. Especialistas garantem que manter o mercado imobiliário aquecido será essencial para recuperar a economia pós-pandemia. Diante deste cenário, construtoras e incorporadoras adotaram iniciativas que prometem revolucionar o setor, inclusive após a quarentena. Envolvem, por exemplo, a utilização de plataformas de vendas digitais, campanhas on-line para a divulgação de empreendimentos e novas estratégias para mostrar as unidades aos interessados.

As medidas buscam manter a retomada no ritmo de crescimento e compensar a proibição de abertura dos estandes aos clientes. Aliado a isso, a Caixa Econômica Federal disponibilizou, desde o início da crise, R$ 154 bilhões em recursos ao setor, para garantir a estabilidade operacional.

No Rio de Janeiro, a construtora Mozak diversificou as ações para atrair a atenção do consumidor. Com 25 anos de atuação no segmento de alto luxo e foco, principalmente, nos bairros de Leblon, Ipanema e Lagoa, a empresa intensificou o modo on-line de trabalho e tem procurado os clientes remotamente via WhatsApp e videoconferências, além dos tradicionais contatos telefônicos e por e-mail. 

O que mais chama a atenção é a forma de exibir o imóvel ao potencial comprador. São oferecidos tour virtual, book de venda digital, vídeos e imagens de drone com a vista de cada apartamento e da região. "Estamos conseguindo nos comunicar e mostrar todos os detalhes dos imóveis, o que às vezes não acontecia presencialmente", diz a gerente comercial Carolina Lindner.

A venda é realizada por meio da docusign, plataforma de assinatura eletrônica com emissão de certificados que garantem juridicamente todo o processo, iniciativa que assegura uma transação 100% digital. "Os clientes estão cada vez mais antenados às novas experiências", afirma Lindner. Os empreendimentos comercializados pela construtora têm de 30 a 600 metros quadrados, com valores de R$ 800 mil a R$ 20 milhões. Apesar da fase de incertezas em razão da pandemia, a gerente acredita que este é o melhor momento para diversificar os investimentos. "Imóvel sempre será imóvel. Trabalhamos com um público específico de alto padrão, em localizações em que a oferta é escassa. Sempre existiu e existirá demanda." Confiante, ela diz que a Mozak vai manter o planejamento de lançamentos para este ano. A companhia comercializa quatro empreendimentos e tem outros dez em fase de construção. A meta é fechar 2020 com R$ 600 milhões em valor geral de vendas, alta de 20% sobre os R$ 500 milhões comercializados no ano passado.

Já a MRV Engenharia, maior construtora de imóveis econômicos da América Latina, com receita líquida de R$ 6 bilhões em 2019, criou uma plataforma digital de vendas que dá às pessoas a possibilidade de comprar o imóvel remotamente e de forma segura. O sistema foi desenvolvido nos últimos dois anos, estava em testes em Minas Gerais, mas acabou adotado no restante do País em virtude da pandemia. Por meio dele, o cliente pode escolher o apartamento e fechar a transação pela internet, sem nenhum contato com o corretor. "A casa própria é o bem mais importante para este momento", afirma Eduardo Fischer, que divide a presidência da companhia com o primo Rafael Menin, e responsável pelas estratégias de expansão da companhia em São Paulo e no Sul do Brasil. A empresa mineira registrou aumento de 60% na procura por imóvel na plataforma, após a criação de feirões on-line, e chegou a negociar uma unidade com um brasileiro residente em Kashiwa, no Japão.

Os descontos chegam a R$ 20 mil, dependendo da região no Brasil - a empresa atua em 22 estados. "É claro que uma coisa é a procura, outra é a venda. Mas o interesse continua crescente. Foi assim em março e na primeira quinzena deste mês", diz o executivo. "Mas é impossível prever algo. O que eu falo hoje pode mudar em pouco tempo." Fischer explica que os lançamentos de empreendimentos estão suspensos durante a quarentena, em decorrência da paralisação das atividades em muitas prefeituras e cartórios, responsáveis pelo andamento dos processos administrativos. A MRV chegou a interromper o trabalho em 20% das obras pelo País e tem adotado medidas restritivas para preservar a saúde dos seus 25 mil funcionários diretos. Além disso, aderiu ao Movimento Não Demita, que visa garantir estabilidade aos funcionários por dois meses, e doou R$ 10 milhões para a compra de respiradores para os hospitais de Minas Gerais, onde fica sua sede.

A Trisul, construtora e incorporadora voltada ao mercado de médio e alto padrão de São Paulo, também aposta na internet para dar prosseguimento às atividades. O tour virtual pelos imóveis prontos e pelos decorados, nos estandes de vendas, é um dos chamarizes da empresa para atrair os clientes aos mais de 40 empreendimentos em negociação pela capital e por cidades do interior. O interessado recebe atendimento via Whatsapp, por teleconferência, sem qualquer contato físico. "A assinatura eletrônica também é possível, quando há mais de um comprador. E o contrato pode ser assinado de qualquer dispositivo, inclusive pelo smartphone", afirma Lucas Araújo, superintendente de marketing da Trisul. 

Com 30 anos de mercado e mais de 200 empreendimentos entregues, a companhia apresentou receita líquida de R$ 798,6 milhões em 2019, com valor geral de vendas de R$ 1,1 bilhão. Em novembro, chegou a projetar vendas brutas de R$ 1 bilhão a R$ 1,3 bilhão para este ano. 
No atual cenário de crise, a empresa promete negociar com seus clientes, para evitar que os distratos aumentem à medida que a pandemia se prolongar.

A mobilização das construtoras é justificada pela recuperação do setor após a crise entre 2014 e 2016. O presidente da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), Luiz Antonio França, acredita que a venda de imóveis ficará mais difícil, mas aposta que a construção civil será fundamental para auxiliar na retomada da economia. "A sociedade vai valorizar ainda mais a importância da moradia", diz França. Ele lembra que a construção civil foi responsável pela criação de 11% dos empregos em 2019, no Brasil, e que o programa federal Minha Casa, Minha Vida gera, anualmente, cerca de 2,4 milhões de postos. E elogia as medidas adotadas pela Caixa Econômica Federal para socorrer o setor. 

Além dos R$ 154 bilhões em linhas de crédito (R$ 35 bilhões já liberados), a instituição dará carência de seis meses a pessoas físicas e jurídicas na contratação de novos empréstimos, aumento do tempo de pausa nos contratos e renegociação de dívidas. "A preocupação é com as pequenas e médias empresas e também com os fornecedores", afirma França. "Por isso, as medidas anunciadas são importantes para garantir a saúde financeira nesse momento tão desafiador."


IstoÉ Dinheiro, Angelo Verotti, 20/abr